Você precisa sujar a botina
Um recente questionamento me colocou em uma máquina do tempo de volta a meados dos anos 2000. Apesar de nunca ter sido um fã muito assíduo, esse episódio acabou furando a bolha e chegando até mim. Em uma de suas edições, o BBB (Big Brother Brasil) contava com a ilustre participação de Fiuk, filho do cantor Fábio Júnior. Durante uma das atividades que envolvia fazer compras para a casa em um mercado fictício, nosso herói indagou quanto à quantidade adequada de sal a ser comprada, levantando se 7 kg de sal seria uma quantia suficiente para que eles passassem uma semana. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), é recomendado o consumo diário de até 5 gramas de sal por adulto. Fazendo uma conta rápida, é possível perceber que sua estimativa inicial estava um pouco fora do alvo.
Essa desconexão com a escala do consumo humano, me fez retornar ao canteiro de obras. Enquanto eu detalhava o projeto de uma contenção em alvenaria estrutural, fui questionado por que razão eu dividi o vergalhão em duas partes no lugar de usar ele inteiriço. A lógica do questionamento era puramente geométrica: usar o vergalhão sem cortes geraria menos "perda" por trespasse.
Não tive como não brincar: "A menos que o Sr. Fantástico esteja no nosso quadro de pedreiros, os custos e a perda por trespasse ainda serão muito inferiores ao risco e à complexidade logística de assentar um bloco a 3 metros de altura, tentando enfiá-lo em um vergalhão inteiriço."
Apesar de ser uma brincadeira, e de a indagação sobre a armadura não ser tão grosseira quanto a de Fiuk sobre o sal, ela também revela a mesma falta de conexão com o que é de fato humano e real. É o olhar do engenheiro que se limita a linhas, monitor e papel.
A tecnologia evoluiu e continua evoluindo a pontos absurdos, com renders hoje em dia mostrando até as entradas do cliente. Mas em meio a tantos avanços e detalhismo tecnológico, questões fundamentais começam a regredir. É cada vez maior o número e a qualidade dos detalhes: é corte da seção transversal da armadura, tag indicando nome e fornecedor, indicam até o espaçamento do sulco da barra. E em contrapartida, questões fundamentais como a eficiência do processo e, principalmente, a executabilidade do projeto, são negligenciadas.
Não tem software que vai te ensinar o que funciona na sua região, qual escolha vai aumentar a produtividade da sua equipe, ou quais decisões são, na verdade, uma loucura completa. O programa não tem vontade, ele é uma ferramenta que vai fornecer resultados com base nos seus inputs. Então, se você não tem qualquer tipo de contato com o canteiro, ao invés dele ser seu escudeiro que apresenta possibilidades para que, com seu crivo, sejam viabilizadas ou não para a obra, ele passa a ser seu norte.
O problema não é o detalhe, mas a ausência do filtro humano. Se você não dispõe do senso crítico requerido para fazer qualquer julgamento do que lhe é apresentado, a precisão tecnológica se torna inútil. A quantidade e a qualidade de nossos arsenais de ferramentas de apoio sempre aumentarão, o que é excelente. Mas isso não substitui a necessidade de ter contato com o produto. Eu, particularmente, nunca vi ninguém ensinar a dirigir sem antes dominar o volante, a embreagem e a rua.
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