A burrice pode ser a parte mais onerosa da obra

    No início dessa semana, fui tomar uma Coca trincando de gelada com um amigo e colega de profissão. Como hábito, fomos a uma pizzaria aqui perto de casa por ser um dos únicos lugares capazes de gelar um refrigerante no bairro.

    Após ter a garganta violada pelo liquido escuro e gelado, demos início à nossa conversa. Havia detalhes de alguns projetos que eu estava elaborando para ele que precisavam de ajustes, e uma dessas questões era a espessura de uma parede.

    Idealmente, devemos sempre evitar estruturas muito esbeltas, visto que a esbeltez é inversamente proporcional à resistência.

    Uma maneira fácil de pensar é imaginar uma régua sendo comprimida. Ao colocar as mãos em cada uma das extremidades e fazer força para aproximá-las, é possível notar a tendência de a régua arquear (flambar), e, com força suficiente, a barriga da régua cresce até estourar. Contudo, se movemos as mãos, partindo da extremidade em direção ao meio da régua, essa tendência de arqueamento vai se dissipando. Consequentemente, a força necessária para romper a régua também aumenta.

     A esbeltez é diretamente ligada à espessura e ao comprimento da peça: quanto mais comprida e menos espessa, mais esbelta.

    Nesse caso em específico, a edificação possuía sala de TV, sala de jantar e cozinha no mesmo alinhamento. Sendo assim, a parede externa dessa face da casa se encontrava sem nenhuma parede perpendicular.

    Com isso em mente, manifestei que seria necessário algum tipo de modificação para garantir o desempenho ideal da estrutura. Na concepção atual, a obra estaria vulnerável a patologias, em especial as causadas por vento.

    Minha solicitação inicial de aumentar a espessura de 9 cm para 14 cm parecia ser a mais lógica: era simples e barata de ser feita. Até fiz uma planilha de custos mostrando, em valores reais, o quão pouco mais cara a obra ficaria com essa alteração.

    Naturalmente, o cliente empinou a carroça. Afinal de contas, obra mais cara é sempre um problema. Disse que conversaria com o pedreiro e nos daria um retorno.

    Das alternativas apresentadas pelo pedreiro, todas violavam algum aspecto da engenharia; algumas, inclusive, eram pura e simples queima de dinheiro. Daí minha completa irritação e incredulidade quando meu colega me informou que seria uma dessas insanidades a solução adotada.

    O que me deixa furioso nessa situação toda é o descaso que algumas pessoas têm com o próprio dinheiro. Eu sei, eu sei, Zeca Pagodinho já dizia: "se quiser beber eu bebo, se quiser fumar eu fumo, pago tudo que consumo com o suor do meu emprego", e cada um faz o que bem entende com o fruto do seu trabalho.

    Ainda assim, por ser cabeça dura, não entra na minha cabeça por que cargas-d'água esse infeliz se recusa a fazer o básico. Está literalmente desenhado como a solução adequada irá resolver o problema com menos recursos. Mas não, vamos encher a parede de pilar embutido.

    Ter o pilar com espessura similar à parede não resolve em nada o panorama inicial. Pelo contrário, isso é mais gasto com aço, concreto e formas. Para os pilares terem algum tipo de mérito, seria necessário que a espessura deles fosse maior do que a da parede. De forma que eles funcionariam como "mini-paredes", diminuindo o comprimento livre da parede externa.

    O que ele fez foi pagar para ter um problema mais caro. Ele trocou uma solução simples e eficiente por uma solução complexa e inútil. Ele não economizou, ele patrocinou o desperdício.

    Situações como essa escancaram como a engenharia perdeu a hegemonia no canteiro de obras informais. A experiência e a intuição são ferramentas poderosas na tomada de decisão, mas elas precisam servir para ajustar e adequar a engenharia, não ignorá-la.

Nosso trabalho é garantir que a ignorância não seja mais cara do que o projeto.

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