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Você precisa sujar a botina

 Um recente questionamento me colocou em uma máquina do tempo de volta a meados dos anos 2000. Apesar de nunca ter sido um fã muito assíduo, esse episódio acabou furando a bolha e chegando até mim. Em uma de suas edições, o BBB (Big Brother Brasil) contava com a ilustre participação de Fiuk, filho do cantor Fábio Júnior. Durante uma das atividades que envolvia fazer compras para a casa em um mercado fictício, nosso herói indagou quanto à quantidade adequada de sal a ser comprada, levantando se 7 kg de sal seria uma quantia suficiente para que eles passassem uma semana. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), é recomendado o consumo diário de até 5 gramas de sal por adulto. Fazendo uma conta rápida, é possível perceber que sua estimativa inicial estava um pouco fora do alvo. Essa desconexão com a escala do consumo humano, me fez retornar ao canteiro de obras. Enquanto eu detalhava o projeto de uma contenção em alvenaria estrutural, fui questionado por que razão eu dividi o ver...

A burrice pode ser a parte mais onerosa da obra

     No início dessa semana, fui tomar uma Coca trincando de gelada com um amigo e colega de profissão. Como hábito, fomos a uma pizzaria aqui perto de casa por ser um dos únicos lugares capazes de gelar um refrigerante no bairro.      Após ter a garganta violada pelo liquido escuro e gelado, demos início à nossa conversa. Havia detalhes de alguns projetos que eu estava elaborando para ele que precisavam de ajustes, e uma dessas questões era a espessura de uma parede .      Idealmente, devemos sempre evitar estruturas muito esbeltas , visto que a esbeltez é inversamente proporcional à resistência.      Uma maneira fácil de pensar é imaginar uma régua sendo comprimida. Ao colocar as mãos em cada uma das extremidades e fazer força para aproximá-las , é possível notar a tendência de a régua arquear (flambar), e, com força suficiente, a barriga da régua cresce até estourar. Contudo, se movemos as mãos, partindo da extremidade em ...

O curioso caso da laje treliçada

     Um dos casos que me intrigou por bastante tempo após a graduação foi a aparente impossibilidade de se usar lajes treliçadas em balanço. Desde moleque, sempre estive dentro de obra — e por mais estranho que possa parecer, as únicas lajes com as quais tive contato até entrar na faculdade foram as treliçadas.      Por uma questão geográfica, econômica ou talvez até cultural, esse sempre foi o sistema hegemônico nas obras da região onde nasci. Mesmo depois de me mudar para um centro urbano com outros parâmetros, ainda era notável a dominância da treliçada sobre os demais sistemas.      O que só tornou mais marcante a minha surpresa — ou melhor, meu espanto — ao ser informado por professores (e mais tarde por colegas) que esse sistema era... limitado. Tecnicamente limitado. A rotina da graduação exige tanto foco na sobrevivência que essa surpresa foi abafada e arquivada sem maiores questionamentos. Havia prazos, provas, normas. E, como t...

Materiais Mágico - 01 - O isopor de rigidez flutuante

     Confesso que acabo passando mais tempo do que deveria nos Reels do Instagram. Não sei se é a quantidade ou o algoritmo personalizado, mas sempre me deparo com os mais variados "pulos do gato" e "esquemas" da construção civil. O mais recente que apareceu pra mim foi a ideia de colocar isopor entre a alvenaria e o concreto fresco durante a concretagem de vigas.      A proposta tenta resolver um clássico conflito entre a teoria acadêmica e a prática de obra. Um princípio básico para o correto dimensionamento e funcionamento de peças de concreto armado é que elas devem ser escoradas até o fim da cura, e, após isso, devem deformar para absorver os esforços de serviço.      Mas formas e escoramentos dão trabalho. Custam caro. E aí, como bom brasileiro, seu Zé Pedreiro chegou a uma conclusão lógica: por que não usar a parede como escora? Resolve dois problemas de uma vez: apoia a viga e ainda economiza forma inferior.      A idei...